domingo, 2 de abril de 2017

Três histórias espirituais

MUDAR OU NÃO MUDAR O MUNDO 


Um Sufi de nome Bayazid, afirmou que durante a sua adolescência pedira insistentemente a Deus nas suas orações, que lhe desse a força necessária para transformar o mundo. Os anos foram passando e homem feito apercebeuse da inexistência de qualquer mudança, em qualquer indivíduo. Mudou a oração, pedindo ao Senhor que lhe concedesse a graça de modificar os que o rodeavam, familiares, amigos, e quem sabe, alguns conhecidos. Já velho, com a morte à espreita, sem que o seu esforço tivesse produzido frutos relevantes, alterou uma vez mais a oração: pediu a graça da transformação pessoal. Se o tivesse feito desde o início, não teria desperdiçado a maior parte da sua vida, como desperdiçou.









                                                                                                            QUE SIGNIFICA SER ILUMINADO?

 - Que significa ser iluminado? – questionou o discípulo. - Ver – respondeu o Mestre. - Ver o quê? - A banalidade do êxito, o vácuo das realizações, o nada do esforço humano. O discípulo ficou consternado: - Mas isso não é derrotismo e desesperança? - Não. É o arrebatamento e a liberdade da águia a planar sobre uma ravina impenetrável. 

ESTAMOS APENAS DE PASSAGEM 


No século passado, um americano foi visitar o rabino polaco Hofez Chaim, transportando consigo duas pequenas malas. Ficou espantado com a austeridade da sua casa. Livros e mais livros espalhados, e de mobília apenas uma cama, uma mesa e um banco. Sendo originário de uma sociedade de consumo, e com uma curiosidade quase mórbida, questionou-o: - Perdoe-me rabino, mas é esta toda a sua mobília? - E essa é toda a que é sua? – perguntou o rabino apontando para as malas de viagem. - Mas rabino, eu estou apenas de passagem... – respondeu o americano. - Também eu meu amigo. Também eu estou apenas de passagem. 


domingo, 29 de janeiro de 2017


Director: Hans-Christian Barth and Producer: Armin Geiger for www.isleofclips.com / 
DOP: C.D. Hartmann / Editor: Florian Achleitner / Grooming: Philip Hoffmann / 


Scott Matthews



sábado, 23 de abril de 2016

Arsenii Tarkovskii, um poema



Íamos, sem saber para onde,
Perseguidos por miragens de cidades
Derrotadas construídas no milagre,
Hortelã pimenta aos nossos pés,
As aves acompanhando-nos o voo,

E no rio os peixes à procura da nascente;
O céu, a nós se abrindo.




Arsenii Tarkovskii


versão de Paulo da Costa Domingos

quarta-feira, 2 de março de 2016

José Régio e(m) Portalegre

A pena vermelha de José Régio

1 – O Dr. José Maria dos Reis Pereira, professor do 2.º grupo (Português e Francês)restaurante JR do Liceu de Portalegre, era um mestre temível. Pontual, assíduo, competente e, sobretudo, exigente. Segundo as regras pedagógicas e didácticas hoje em vigor, talvez ele fosse considerado pouco convergente com estas. Porém, naquelas décadas de vigência profissional do Dr. Reis Pereira em Portalegre, a sua monótona dicção fortemente nortenha (ou minhota) e a escassa vocação pessoal para criar um ambiente descontraído (ou agradável) na sala de aula não eram considerados itens desfavoráveis.
Os alunos respeitavam e temiam o professor, que cumpria horários, calendários, currículos e programas e que exigia trabalho e estudo. As chamadas orais e sobretudo os exercícios escritos implicavam saber a matéria e não cometer demasiados erros. O Dr. Reis Pereira era justo e exigente.
O professor não brincava em serviço e não misturava afectos com justiça. Creio ser clássico e incontornável o caso do jovem Lauro António cuja família e ele próprio eram amigos e visitas de José Régio, em Portalegre. O cineasta, numa entrevista à revista A Cidade (n.º 7 – 1.ª série, Março de 1983), recordou ter sido o seu professor de Francês, o Dr. Reis Pereira, quem lhe aplicou o único “chumbo” no Liceu…
Está tudo dito.
2 – Há meses, complementando a oferta hoteleira da cidade, foi instalado o Hotel José Régio. Declaradamente concebido segundo homenagem viva e permanente a uma figura emblemática de Portalegre, o poeta José Régio, a unidade organizou o espaço em torno da figura e obra do autor da Toada. Lembrando ainda com inteira justiça um portalegrense, Avelino Facha, que durante décadas lutou pela realização do sonho, inatingido, de ali construir um hotel, os responsáveis procuraram ligar a memória do literato a cada recanto. As imagens de Régio, os versos de Régio, os livros de Régio, a inconfundível e clara assinatura de Régio, tudo isso enche e preenche todos e quaisquer espaços e pretextos, num critério por vezes quase obsessivo. Louve-se, no entanto, a intenção.
Régio, com efeito, está ligado àqueles lugares. “Expulso” do Café Central, quartel- general da tertúlia de Feliciano Falcão onde há duas décadas se integrara, pela invasão dos serões televisivos, foi no Café Facha que retomou a tranquilidade perdida. Apesar de consideravelmente mais curta esta estadia, pelos finais dos anos cinquenta e inícios dos sessenta, foi no entanto significativa porque correspondeu a um período marcante da sua vida, entretanto liberta pela reforma dos encargos pedagógicos. Foi o tempo de encontro com os jovens do Amicitia, notável grupo cultural também ali formalizado, numa sala do primeiro andar. Ao lado desta residiu, também, um seu colega e amigo do Liceu, o Dr. Fernandes de Carvalho, genro da incontornável figura regiana que foi Dona Rosalina Vinte-e-Um.
O pretexto patrimonial de José Régio está, pois, plenamente ali justificado.
3 – A recente necessidade de me ter de deslocar a Portalegre por diversas vezes, levou-me a optar pelo Hotel Régio, como seu hóspede. Nada tenho a criticar, bem pelo contrário. São dignas e adequadas as instalações, competente o serviço, simpático o pessoal. A relação preço-qualidade é perfeita. Passe a publicidade, aliás merecida.
Há dias, a minha última estadia portalegrense coincidiu com a abertura do restaurante José Régio. Que outro nome poderia ter tido, se inserido naquele conjunto!?
Não o experimentei ainda mas acredito na sua qualidade, a avaliar pela coerência global do projecto.
Como seria lógico, do acontecimento foi feita a respectiva divulgação e publicidade, pelo menos num grande cartaz alusivo, exposto junto à porta de recepção, numas folhas volantes e num anúncio em jornal local. Formalmente, tudo normal.
restaurante JR 1
Menos num pormenor dos conteúdos. E é aqui que se rompe o desejável equilíbrio. É que esse conteúdo não agradaria ao Dr. Reis Pereira.
4 – Usando uma caneta de tinta vermelha, pois a negra, habitual, era reservada para a assinatura, o rigoroso professor não se poupava na marcação dos erros e na redacção dos comentários a estes alusivos. E era implacável na defesa do idioma que tão bem servia através da sua escrita. Logicamente, via em cada aluno alguém que deveria segui-lo, se não no genial e inspirado conteúdo ao menos no respeito pela forma. E tanto a ortografia como a sintaxe lhe interessavam, com abordagem, embora mais ligeira, à própria caligrafia. E a pontuação não escapava ao seu olho crítico. Como é o caso dos pontos e das vírgulas…
restaurante JR erros regianos
Há vírgulas obrigatórias, algumas facultativas e outras absolutamente proibidas.
Comete-se com inusitada frequência o erro de separar o sujeito do predicado, nalguns casos em frases bastante curtas ou muito simples. Porém, a vírgula apenas delimita orações ou elementos de uma oração e marca geralmente uma pausa de curta duração.
O uso da vírgula, como o da restante pontuação em geral, é complexo, pois está intimamente ligado à decomposição sintáctica, lógica e discursiva das frases. Do ponto de vista lógico e sintáctico, não há qualquer motivo para separar o sujeito do seu predicado. É por vezes uma errada ou pontuada leitura que transborda para a escrita. Daí o erro…
Não se usa a vírgula para separar termos que, do ponto de vista sintáctico, estabelecem directamente uma ligação entre si, como sujeito e predicado ou entre o verbo e os seus complementos, directos ou indirectos.
Assim, logo a abrir, escrever O Restaurante José Régio, convida-o a descobrir a sua nova cozinha seria fortemente penalizado pelo guardião da pureza da língua que foi o Dr. Reis Pereira. O mesmo aconteceria com a frase final do painel e do anúncio no jornal, onde se lê: Visite-nos e experimente os mais variados pratos que o chef Pedro Pina, prepara especialmente para si. Receando que o professor não apreciasse devidamente o galicismo chef numa portuguesíssima frase, disponho da mais absoluta certeza do seu vivo repúdio pela inoportuna vírgula separando o sujeito cozinheiro da sua acção culinária.
Por curiosidade, fui ler o folheto sobre o Hotel José Régio que trouxera, com a quádrupla efígie do literato na capa branca. E aí encontrei: …o Café Facha, abria...;O Café Facha, depressa se revelou…; A cafetaria José Régio, foi pensada
restaurante JR 2
Conclusão óbvia: o responsável criativo daqueles textos teve a imensa ventura, enquanto estudante, de não ter sido aluno do Dr. José Maria dos Reis Pereira. O que inevitavelmente lhe teria acontecido seria sofrer a mesma sorte do jovem Lauro Corado.
Ou, em alternativa, aprenderia a não usar vírgulas, sistematicamente, separando o sujeito do respectivo predicado.
 António Martinó de Azevedo Coutinho

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O ZEN NUM POEMA


SILÊNCIO E UM DEDO APONTANDO O CAMINHO - O ZEN NUM POEMA




Um mestre Zen compôs o seguinte poema para os seus discípulos:

“Quando curiosamente te perguntarem buscando saber o que é Aquilo,
Não deves afirmar ou negar nada,
Pois, o que quer que seja afirmado não é a verdade,
E o que quer que seja negado não é verdadeiro.
Como é que alguém poderá dizer com certeza o que Aquilo possa ser
Enquanto por si mesmo não tiver compreendido plenamente o que É?
E, após tê-lo compreendido,
Que palavra deve ser enviada
De uma região onde a carruagem da palavra
Não encontra um trilho por onde possa seguir?
Portanto, aos seus questionamentos
Oferece-lhes apenas o silêncio:
Silêncio e um dedo apontando o caminho.”